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Raça Brasil A fórmula de um grande mestre - Quando o assunto é capoeira, vem à mente uma série de referências, como a ginga, a música, a história, os escravos, a cor da roupa - predominantemente branca - , o berimbau, os movimentos, as letras, a alegria... Entre tantas, existe uma figura mais que especial presente na roda: o mestre, fio condutor de toda magia existente na arte da capoeira
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Capoeira
A fórmula de um grande mestre
Quando o assunto é capoeira, vem à mente uma série de referências, como a ginga, a música, a história, os escravos, a cor da roupa - predominantemente branca - , o berimbau, os movimentos, as letras, a alegria... Entre tantas, existe uma figura mais que especial presente na roda: o mestre, fio condutor de toda magia existente na arte da capoeira

Por Eli Antonelli
Foto: Divulgação
Em dezembro, a capoeira angola ficou órfã de uma de suas maiores referências: João Pereira dos Santos, o mestre João Pequeno – um lutador na arte e na vida, herdeiro de mestre Pastinha – que morreu aos 93 anos, na Bahia. Ainda jovem, fugiu da seca, trabalhou na construção civil durante certo tempo, enfrentou com coragem as dificuldades da cidade grande e foi carvoeiro (o “João do carvão”).

O trabalho duro e sofrido foi o alicerce para a força e a energia constantes, capazes de marcar a história na arte da capoeira, formando outros mestres e inúmeros discípulos. O portal da Capoeira (www.portalcapoeira.com) destaca uma de suas citações. Para ele, “a capoeira era boa para o corpo para mantê-lo flexível e jovem e, mais que isso, bom para desenvolver a mente.” No bairro Fazenda Couto, no subúrbio ferroviário de Salvador, Cristiane Santos, ou Nani de João Pequeno, a neta que o acompanhava nas atividades, relembra as histórias do avô. Ela conta que a fama não lhe trouxe os recursos necessários e foi com muita dificuldade que ele continuava, mesmo com idade avançada, a fazer o seu trabalho na capoeira, como o projeto Pequenos do João, que surgiu na comunidade em 2007, mais precisamente na laje da casa, no 3º andar, onde João subia com dificuldade. Nani dava aula para crianças, e mestre João Pequeno fazia questão de participar, levando seus ensinamentos a elas. “Quando começamos o projeto, ele já estava com 89 anos e, mesmo assim, fazia os movimentos. Esses momentos são inesquecíveis, pois mesmo com a idade que tinha, ele conseguiu transmitir muitos valores e plantou sementes na nova geração”, afirma Nani.
Foto: Arquivo Pessoal
Para ela, a maior lição que o avô deixou foi a humildade. “A grande contribuição dele foi ensinar esse respeito pelo outro, mesmo com todo conhecimento e vivência que tinha da capoeira, sendo um discípulo direto de mestre Pastinha, um ícone da capoeira angola, meu avô sempre aprendia com os outros, tinha um respeito pelas pessoas”, diz. Atualmente, Nani é professora de capoeira (começou a praticar com o avô, aos 12 anos) e está concluindo a graduação em Educação Física. Sua monografia, João Pequeno de Pastinha e a volta que o mundo dá: percepção da cultura a partir da roda de capoeira angola, discute a metodologia do mestre e faz uma vinculação da importância da cultura popular com a cultura acadêmica.


Para o mestre João Pequeno, não existia a diferenciação entre os alunos e, por essa postura, chegou a ser criticado pelo trabalho que fez no Centro de Cultura Popular. “Ele tinha vários tipos de alunos, desde os mais humildes, aqueles que conseguiam, às vezes, só pagar uma matrícula, mas mesmo assim, o mestre não deixava de ensinar. Sua retribuição não era o dinheiro, mas, sim o que essas pessoas poderiam, a partir daquele conhecimento, passar à sociedade”, lembra Nani.

Famoso, ele viajou praticamente o mundo inteiro e tinha tudo para ter um comportamento diferente, mas manteve-se firme em seu propósito de levar a arte da capoeira para o maior número de pessoas possível, sempre pregando a humildade. Um fato marcante foi quando recebeu o título de Dr. Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Fez questão de convidar as pessoas da comunidade, as crianças do projeto, os pais, os parentes... Lembro de uma senhora que disse: ‘Eu nunca imaginei que um dia entraria na UFBA e seu João me levou lá’. As pessoas viam o mestre João Pequeno ser homenageado num lugar como aquele, sabendo que ele estava lá e que fazia parte daquela comunidade simples. Perceberam que também poderiam superar as barreiras e as dificuldades, alcançar seus objetivos. Foi gratificante ver o que significou aquele momento para as pessoas da comunidade”, relembra Nani. Os ensinamentos de João Pequeno foram registrados no livro Uma vida pela capoeira, lançado em 2002. Além da obra, a neta mantém um site com todas as informações sobre o avô: www.joao-pequeno.com.

O professor de capoeira Marcelo Pinhatari mudouse em 1997 para Salvador e conheceu a capoeira angola no Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), coordenado por mestre João Pequeno desde o início dos anos 80, com a morte de mestre Pastinha – o mais conhecido e famoso mestre de capoeira angola. “Deixou em vida um testamento, ao dizer que “a eles (João Pequeno e João Grande”) eu ensinei tudo, inclusive o pulo do gato.”

Pinhatari conviveu diretamente por três anos com o mestre, até retornar ao sul, quando formou a Associação de Capoeira Angola Forte Santo Antônio que, hoje, está com 11 anos de atuação, levando as técnicas e os ensinamentos do mestre Pastinha para a região. A relação de ensino possui características próprias. “O processo pedagógico na capoeira angola envolve uma relação de comunicação corporal direta, em que estão envolvidos elementos como atenção, concentração, autoconhecimento, controle de movimentos, autocontrole, entre outros”, conta o professor. Ao longo do tempo, a Associação recebeu professores do Ceca, inclusive com a presença de Nani, em eventos realizados pelo grupo.
"MESTRE JOÃO PEQUENO ERA CRISTÃO, MAS TINHA UM PROFUNDO RESPEITO PELA HERANÇA DE MATRIZ AFRICANA. NUNCA DEIXOU DE CANTAR ALGO NA CAPOEIRA, POR SER CRISTÃO HAVIA UM RESPEITO ÀS DIFERENÇAS QUE ELE DEMONSTRAVA NA PRÁTICA"

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